Sexta-feira, Fevereiro 29
Havia uma magnólia
Havia uma magnólia muito bonita. Oh, era realmente muito bonita. Lá estava ela, enterrada até à cintura e iluminada por milhões de flores, daquelas que levam as abelhas à loucura. Sucede que das suas flores nasciam outras magnólias. E das flores destas magnólias nasciam outras magnólias. E das flores destas nasciam, por sua vez, outras magnólias e outras ainda nasciam das flores daquelas. E assim sucessivamente, até nascerem limões.
Quinta-feira, Fevereiro 28
aguasfurtadas
Todas as peças a €20.
Fotografias, pinturas, ilustrações, pautas originais, manuscritos, etc., etc.
Inauguração este sábado, dia 1 de Março, pelas 16h00, na Galeria do JUP (Rua Miguel Bombarda, 187, R/C, no Porto).
O produto das vendas será aplicado na produção da revista "aguasfurtadas" 11.
— Daí a vossa atracção pelas bruxas?
Danièle Huillet — Quando damos de comer aos gatos em Roma, compreendemos o que se passava com as bruxas; muitas vezes tinha a impressão que era a minha pele que estava em jogo. Aí, dei-me conta que havia mulheres que, porque observavam as estrelas à noite, porque apanhavam ervas de noite, porque os gatos as seguiam... foram queimadas. É isto as bruxas!
Jean-Marie Straub — Foram mais de trinta mil queimadas. Não é coisa pouca!
Conversation avec Danièle Huillet et Jean Marie Straub, sacada ao Ángel
Danièle Huillet — Quando damos de comer aos gatos em Roma, compreendemos o que se passava com as bruxas; muitas vezes tinha a impressão que era a minha pele que estava em jogo. Aí, dei-me conta que havia mulheres que, porque observavam as estrelas à noite, porque apanhavam ervas de noite, porque os gatos as seguiam... foram queimadas. É isto as bruxas!
Jean-Marie Straub — Foram mais de trinta mil queimadas. Não é coisa pouca!
Conversation avec Danièle Huillet et Jean Marie Straub, sacada ao Ángel
Quarta-feira, Fevereiro 27
The Death of a Bookseller
"Law Chi Wah, a well known independent book store owner in Hong Kong, was killed by the collapsing book boxes in his small warehouse before Lunar New Years. His body was found two weeks later, already rotten. Douban (zh) has set up a special page for this book martyr. His friends and acquaintances set up a blog (zh) in memory of him and his book store."
[A história.]
[A história.]
Este é o blogue do poeta Bill Knott. Merece uma visita nem que seja pelo post de apresentação, que é um dos mais originais que já li na blogosfera.
Terça-feira, Fevereiro 26
Ex.ma sra. governadora civil
"O abaixo assinado, cidadão português e cronista, vem, muito respeitosamente, expor e requerer a V. Ex.ª o seguinte 1 - Tendo o signatário tido conhecimento de que a PSP identificou três professores que, convocados por sms, se reuniram no sábado na Avenida dos Aliados para, supõe-se, não dizer bem das políticas educativas do Ministério da Educação; 2 - Mais tendo sabido que, entre as centenas de presentes, a PSP decidiu identificar (já que tinha que identificar alguém e não levara consigo bolinhas numeradas para proceder a um sorteio) três pessoas que falaram às TV's; 3 - E tendo sabido ainda que tal identificação (e tudo o que se lhe seguirá) se deveu ao facto de as pessoas em causa não terem, em devido tempo, informado V. Ex.ª de que pretendiam ir nessa tarde à Avenida dos Aliados; 4 - Tendo, por fim, conhecimento de que, pelo mesmo motivo, um sindicalista foi recentemente condenado em Oeiras; vem o signatário solicitar autorização de V. Ex.ª para, logo à noite, se reunir com alguns amigos no Café Convívio, sito na Rua Arquitecto Marques da Silva, nº 303, no Porto, a fim de discorrerem todos ociosamente sobre assuntos diversos, entre os quais provavelmente não dizer bem das políticas educativas do Ministério da Educação. Pede deferimento."
Manuel António Pina
Manuel António Pina
un rapport entre deux choses
Jacques Rancière: Dans les années 1960, on critiquait les images, on démasquait la réalité qu'elles cachaient, les messages qu'elles véhiculaient.
À l'inverse, le Barthes de La Chambre claire et le Godard des Histoires du cinéma ont opéré une nouvelle sacralisation de l'image comme présence immédiate de l'invisible dans le visible. Ces deux positions perdent la tension propre aux images. Une image n'est ni une présence visible pure, ni un écran tendu devant les choses. Elle est toujours un rapport entre deux choses. La photographie d'un visage nous le donne et soustrait la pensée qui l'anime.
Un plan de cinéma est un enchaînement dans une histoire et une suspension de cette histoire. Le verre de lait que porte Cary Grant dans Suspicion d'Hitchcock est le poison que l'histoire nous faisait attendre et il est une pure tache blanche qui fascine notre regard, comme celui de Joan Fontaine qui ne le boira pas. L'image cinématographique hérite d'une tension, déjà présente dans les mots de la littérature. Chez Flaubert, il y a une histoire que l'on raconte, avec ses événements et ses épisodes, mais la respiration de la phrase raconte une autre histoire, faite d'événements sensibles infimes. Le cinéma a repris cette tension propre au régime esthétique de l'art entre une logique représentative classique d'enchaînement et une logique esthétique de suspension .
À l'inverse, le Barthes de La Chambre claire et le Godard des Histoires du cinéma ont opéré une nouvelle sacralisation de l'image comme présence immédiate de l'invisible dans le visible. Ces deux positions perdent la tension propre aux images. Une image n'est ni une présence visible pure, ni un écran tendu devant les choses. Elle est toujours un rapport entre deux choses. La photographie d'un visage nous le donne et soustrait la pensée qui l'anime.
Un plan de cinéma est un enchaînement dans une histoire et une suspension de cette histoire. Le verre de lait que porte Cary Grant dans Suspicion d'Hitchcock est le poison que l'histoire nous faisait attendre et il est une pure tache blanche qui fascine notre regard, comme celui de Joan Fontaine qui ne le boira pas. L'image cinématographique hérite d'une tension, déjà présente dans les mots de la littérature. Chez Flaubert, il y a une histoire que l'on raconte, avec ses événements et ses épisodes, mais la respiration de la phrase raconte une autre histoire, faite d'événements sensibles infimes. Le cinéma a repris cette tension propre au régime esthétique de l'art entre une logique représentative classique d'enchaînement et une logique esthétique de suspension .
Um homem convence-se de que é um pássaro
Um homem convence-se de que é um pássaro. Sobe ao telhado, abre os braços e lança-se do alto do prédio. A breves milímetros de se esborrachar no chão, percebe que vai morrer e arrepende-se da sua loucura: bate rapidamente as asas e levanta voo para não sujar as penas.
Uma história de Voltaire de Souza
"CHUVAS DA MADRUGADA
Assaltos. Seqüestros. Robertão tomava o maior cuidado.
Carro novo. Dinheiro no bolso. Vida bem-sucedida.
- E a mulherada não reclama.
Ele estava voltando sozinho de um motel na Marginal.
Tinha deixado a bela morena Gilvanka perto da entrada de Guarulhos.
Estava perto do Sambódromo quando uma moto se aproximou.
O assalto foi rápido. E humilhante.
- Me deixa pelo menos com a cueca.
- Peladão, cara. Que eu gostei desse modelo.
De fato, era uma fina peça em seda pura.
Nudez. Desespero. A chuva das altas horas da noite.
Foi quando Robertão viu uma coisa brilhando na enxurrada.
Era um tapa-sexo feminino. Relíquia de um quente carnaval.
As lantejoulas douradas cobriam mal a privilegiada anatomia do rapaz.
Mas atraíram o dr. Pedrosa. Que dirigia seu Subaru em estado de adiantada embriaguez.
A carona foi bem-vinda. O beijo também.
Robertão descobre novos prazeres no apê do engenheiro aposentado.
O Carnaval pode passar. Mas não se escondem para sempre os desejos mais ocultos."
Mais histórias de Voltaire de Souza, pseudónimo do jornalista e escritor brasileiro Marcelo Coelho, aqui.
Assaltos. Seqüestros. Robertão tomava o maior cuidado.
Carro novo. Dinheiro no bolso. Vida bem-sucedida.
- E a mulherada não reclama.
Ele estava voltando sozinho de um motel na Marginal.
Tinha deixado a bela morena Gilvanka perto da entrada de Guarulhos.
Estava perto do Sambódromo quando uma moto se aproximou.
O assalto foi rápido. E humilhante.
- Me deixa pelo menos com a cueca.
- Peladão, cara. Que eu gostei desse modelo.
De fato, era uma fina peça em seda pura.
Nudez. Desespero. A chuva das altas horas da noite.
Foi quando Robertão viu uma coisa brilhando na enxurrada.
Era um tapa-sexo feminino. Relíquia de um quente carnaval.
As lantejoulas douradas cobriam mal a privilegiada anatomia do rapaz.
Mas atraíram o dr. Pedrosa. Que dirigia seu Subaru em estado de adiantada embriaguez.
A carona foi bem-vinda. O beijo também.
Robertão descobre novos prazeres no apê do engenheiro aposentado.
O Carnaval pode passar. Mas não se escondem para sempre os desejos mais ocultos."
Mais histórias de Voltaire de Souza, pseudónimo do jornalista e escritor brasileiro Marcelo Coelho, aqui.
Segunda-feira, Fevereiro 25
A construção da variante
Parece uma Nota sobre o Cinematógrafo, mas afinal é um aforismo de E.M. Cioran:
Avoir introduit le soupir dans l'économie de l'intellect.
"Proibiram a burguesia que utilizasse cavalos para retirar a neve. Então, a burguesia, sem pensar demasiado, alugou um camelo. E o camelo fazia o trabalho. E os soldados riam com simpatia - 'Bravo! Que habilidade para iludirem o decreto!'
(Vi-o com os meus próprios olhos em Arbat)."
Marina Tsvetáeva, "Indícios Terrestres". Tradução de Manuel Dias.
(Vi-o com os meus próprios olhos em Arbat)."
Marina Tsvetáeva, "Indícios Terrestres". Tradução de Manuel Dias.
Algo muito aborrecido
Um tipo adormece com uma esferográfica na mão. De manhã tem um romance pronto. O tipo queixa-se do sucedido ao médico:
- Ah, é algo muito aborrecido, muito aborrecido.
O médico aconselha-o a dormir com uma faca na mão.
- Ah, é algo muito aborrecido, muito aborrecido.
O médico aconselha-o a dormir com uma faca na mão.
Domingo, Fevereiro 24
Uma história histórica
"(A cena passa-se em 1913 no império austro-húngaro por baixo da alcova onde o imperador assegura a sobrevivência do mesmo império. Abraão Perestrelo, criado caboverdiano, contracena com Nikolas Kalopoustis, autêntico contra-ponto)
AP - Sabes o que é o legaço-cozinho?
NK - ...
AP - É a Ipomaea eriocarpa.
NK -...
AP - Por isto é que não estavas à espera.
(Cai o pano).
manel"
AP - Sabes o que é o legaço-cozinho?
NK - ...
AP - É a Ipomaea eriocarpa.
NK -...
AP - Por isto é que não estavas à espera.
(Cai o pano).
manel"
Sábado, Fevereiro 23
Sie sind für mich auch eine Aufgabe

Há tanta lama, tanta, tanta lama, que devemos nalgum ponto entre as costelas possuir um grande sol interior se não quisermos tornar-nos vítimas psicológicas (sapatos rotos e pés encharcados, podeis imaginar isto sozinhos).Quando li o texto de Maria Filomena Molder, fiquei impressionada com Etty Hillesum, mas ao mesmo tempo com muito medo e incompreensão. O ano passado encontrei a tradução espanhola do seu diário na montra da livraria Leitura. Dia 6 de Agosto. Comprei o livro, mas faltou-me sempre coragem para o enfrentar e só agora, por necessidade — para ver se ela me ajuda a aguentar o filme de Claude Lanzmann*, quem senão ela? —, pego no diário, abro-o, leio a primeira página e todo o medo desaparece. Não sei explicar, ouço Etty como se ela estivesse ao meu lado.
Carta de 12.1942 às duas irmãs de Haia
Está aqui uma das chaves do segredo desta mulher, não querer participar, para além da sua condição de vítima real, subjugada, acossada, no grande processo de auto-vitimização, não querer sentir-se vítima. É aqui que se inscreve o desejo ardente de ser o «coração pensante» das barracas de Westerborck. Ela não quer ceder ao olhar de desprezo, ao olhar de crueldade do carrasco, infame e insensível, não quer fazer desse olhar um olhar que — porque o assimilou e o fez seu — lhe convém. Forma sublime de resistência, para a qual podemos encontrar uma afinidade na do escravo, que arrastado, deixa cair o corpo, fazendo-se mais pesado.
[Filomena Molder, "O coração pensante e a faculdade de julgar" intervalo 2, pág 25]
_________Domingo, 9 de Marzo (1941)Adelante pues! Éste va a ser un momento doloroso, casi insuperable para mí: entregar mi ánimo cohibido a un insignificante trozo de papel lineado. A veces los pensamientos están perfectamente organizados y claros en la cabeza y los sentimentos son muy profundos, pero escribirlos es imposible. Creo que es, sobre todo, por pudor. Tengo un gran reparo, no me atrevo a revelar mis cosas, a dejarlas fluir libremente. No obstante, tendrá que ser así si, a largo plazo, quiero llevar mi vida a un término razonable y satisfactorio. Es igual que ese último grito liberador en la relación sexual, que también se queda tímidamente atrapado en el pecho.
*Por coincidência, o diário de Etty começa no dia 9 de Março, que é o dia seguinte à longa projecção de "Shoah" em Lisboa, na sala pequena da Cinemateca. Reservem os lugares e o coração.
Sexta-feira, Fevereiro 22
No centro das contradições não se apanham borboletas
A minha relação com Straub não é nada fácil. Mal acabo de concordar com ele, logo surge qualquer coisa que instala a confusão, e à palavra certa e justa, sucede uma tagarelice sem fim, um falar sem objectivo (wenn einer blos spricht, um zu sprechen, er gerade die herrlichsten, originellsten Wahrheiten ausspricht.). O que vale é que não sou mulher séria, tudo isto dá-me vontade de rir.
Quinta-feira, Fevereiro 21
Lektion 86
Se não me engano, num dos textos do Catálogo da Cinemateca, Straub diz que poderia ser professor de gramática (do Grego transliterado grammatiké, feminino substantivado de grammatikós —, é a "arte de ler e de escrever"). Bom, na verdade ele é — ou talvez deva dizer: eles são professores de gramática. Agrada-me o modo preciso como tratam as palavras. Por exemplo, voltando à Conferência de Imprensa de Berlim de 21 de Fevereiro de 1984:
Tell us about the gestation of the idea for the start of this project. Erzählen Sie uns bitte etwas über das Entstehen der Idee, wie Sie also zu dieser Produktionsmodalität gekommen sind.
Jean-Marie Straub: Also, es gibt viele Sachen in Ihrer Frage. Erstens haben Sie gesagt, auf Englisch, gestation [Reifeprozeß/Schwangerschaft]. Ich glaube, ein Film ist kein Kind, wir brauchen unsere Filme nicht als Kinder, also eine gestation gab es da nicht. Kinder sind etwas viel wichtigeres als Filme. Wir haben unsere Filme nie gestated. Sie haben dann auf Deutsch ein anderes Wort gebraucht, das akzeptiere ich. Dann ist in Ihrer Frage eine Gegenfrage von mir: Wollen Sie über die Produktionsbedingungen etwas erfahren, oder wie wir zum Kafka gekommen sind?
Quarta-feira, Fevereiro 20
88. Cosas que caen del cielo (para Ángel)
Nieve. Granizo. No me gusta la celllisca pero, mezclada con la blanca nieve, es linda.
La nieve es maravillosa cuando ha caído sobre un techo de corteza de ciprés.
Cuando la nieve empieza a derretirse o cuando no ha nevado mucho, penetra en las rendijas de los ladrilllos. De suerte que el techo es negro en algumas partes y blanco en otras, muy atrayente.
Me gustan la llovizna y la lluvia cuando caen sobre un techo de tejas. Me gusta asimismo la escarcha sobre un techo de tejas o un jardín.
Sei Shonagon, "El livro de la almohada", selección y traducción de Jorge Luis Borges y María Kodama, Alianza Editorial, Madrid
La nieve es maravillosa cuando ha caído sobre un techo de corteza de ciprés.
Cuando la nieve empieza a derretirse o cuando no ha nevado mucho, penetra en las rendijas de los ladrilllos. De suerte que el techo es negro en algumas partes y blanco en otras, muy atrayente.
Me gustan la llovizna y la lluvia cuando caen sobre un techo de tejas. Me gusta asimismo la escarcha sobre un techo de tejas o un jardín.
Sei Shonagon, "El livro de la almohada", selección y traducción de Jorge Luis Borges y María Kodama, Alianza Editorial, Madrid
Terça-feira, Fevereiro 19
O alivio por estar morto deveria ser este: eliminada aquela mancha de inquietação que é a nossa presença, a única coisa que conta é o desenrolar e o suceder-se das coisas sob o sol, na sua serenidade impassível. Tudo é calma e tende para a calma, até mesmo os furacões, os terramotos, a errupção dos vulcões. [fuga da arte, 17 Fev. mais ao menos ao 19º minuto]
"Uma mulher resolveu passar a trabalhar no turno da noite. Pela seguinte razão: reparando que era de noite que sonhava, pensou que as excentricidades oníricas a ajudariam a passar mais alegremente, ou menos tristemente, aquelas horas.
Observou, porém, que passou a sonhar de dia, com pesadelos.
O fenómeno, conhecido na literatura pelo nome de palindroma dos sonhos, é citado abundantemente, entre muitos outros autores, por Strümpell, Volkelt e Tissié.
manel"
Observou, porém, que passou a sonhar de dia, com pesadelos.
O fenómeno, conhecido na literatura pelo nome de palindroma dos sonhos, é citado abundantemente, entre muitos outros autores, por Strümpell, Volkelt e Tissié.
manel"
Segunda-feira, Fevereiro 18

Todas as peças a €20.
Fotografias, pinturas, ilustrações, pautas musicais originais, manuscritos, etc., etc.
Só autores famosos.
Inauguração no dia 1 de Março, pelas 16h00, na Galeria do JUP (Rua Miguel Bombarda, 187, R/C, no Porto).
O produto das vendas será aplicado na produção da revista "aguasfurtadas" 11.
"Estava eu no café, no outro dia, muito refastelado à janela onde dava o sol, veio o empregado com o café e disse:
- O sr. está muito satisfeito ao sol!
E eu:
- Pois! Sou dum país onde há muito sol e faz-me falta!
- Donde é?
- Portugal.
- Ah, eu também sou dum país onde há muito sol.
- Donde?
- San Gaetano.
- Que é isso?
- É na Sicília.
manel"
- O sr. está muito satisfeito ao sol!
E eu:
- Pois! Sou dum país onde há muito sol e faz-me falta!
- Donde é?
- Portugal.
- Ah, eu também sou dum país onde há muito sol.
- Donde?
- San Gaetano.
- Que é isso?
- É na Sicília.
manel"
Domingo, Fevereiro 17
Madonnen
São uma espécie de meteorito, passam às escondidas, quase com vergonha. Ainda há pouco, as "Luzes no crepúsculo" tiveram a mesma má sorte que agora "Madonnen" de Maria Speth: uma sessão por dia durante uma semana, na sala estudio do Campo Alegre, já de si tão perdida no meio do nada. E é pena, porque são filmes que nos fazem falta, filmes que nos devolvem um pedaço do mundo e de nós próprios. Hoje, "Madonnen" está precisamente a meio do seu percurso.
O André pediu-me para não dardennizar a Maria Speth. Não o pretendo fazer, não foi neles nem em Rosetta que pensei. Foi em Wanda (de Barbara Loden). Rita é uma rapariga desse tipo flutuante, não tem amarras em lado nenhum, em ninguém — uma noite na varanda, ela diz a Marc que "podia viver em qualquer sítio"; porque para ela todos os sítios são iguais. Assim como não vê fronteira entre a verdade e mentira. Rita age como um pequeno animal — digamos, se quisermos ser morais, como uma raposa. E esta é a única apreciação moral que consigo articular, não condeno Rita. A verdade é que ela trata bem dos filhos, apesar de os abandonar. Fanny, a mais velha, a mais teimosa, a que se insurge mais contra e a favor da mãe, um dia atira-lhe à cara "pára de fazer filhos". Rita não responde. Porque é que umas pessoas têm sardas e outras não? Há uns breves instantes em que ela dá-se conta do seu enorme desprendimento (um plano na paragem de autocarro, por exemplo), mas depois isso passa, mete umas roupas no saco e continua o seu caminho directo para lado nenhum. Sandra Hüller é magnífica.
Uma das minhas cenas preferidas: Rita, Marc e os míudos vão passar um dia fora. As crianças brincam na água, cansam-se. Fanny apanha umas pedrinhas e mostra-as à mãe, "vê como são bonitas e brilhantes". Rita responde que são pedras vulgares. Depois chove, as crianças adormecem, Rita e Marc sentam-se à porta da tenda. A luz é forte.
O André pediu-me para não dardennizar a Maria Speth. Não o pretendo fazer, não foi neles nem em Rosetta que pensei. Foi em Wanda (de Barbara Loden). Rita é uma rapariga desse tipo flutuante, não tem amarras em lado nenhum, em ninguém — uma noite na varanda, ela diz a Marc que "podia viver em qualquer sítio"; porque para ela todos os sítios são iguais. Assim como não vê fronteira entre a verdade e mentira. Rita age como um pequeno animal — digamos, se quisermos ser morais, como uma raposa. E esta é a única apreciação moral que consigo articular, não condeno Rita. A verdade é que ela trata bem dos filhos, apesar de os abandonar. Fanny, a mais velha, a mais teimosa, a que se insurge mais contra e a favor da mãe, um dia atira-lhe à cara "pára de fazer filhos". Rita não responde. Porque é que umas pessoas têm sardas e outras não? Há uns breves instantes em que ela dá-se conta do seu enorme desprendimento (um plano na paragem de autocarro, por exemplo), mas depois isso passa, mete umas roupas no saco e continua o seu caminho directo para lado nenhum. Sandra Hüller é magnífica.
Uma das minhas cenas preferidas: Rita, Marc e os míudos vão passar um dia fora. As crianças brincam na água, cansam-se. Fanny apanha umas pedrinhas e mostra-as à mãe, "vê como são bonitas e brilhantes". Rita responde que são pedras vulgares. Depois chove, as crianças adormecem, Rita e Marc sentam-se à porta da tenda. A luz é forte.
Sábado, Fevereiro 16
como de pão para a boca
E para quem duvidar ainda que a palavra mais importante nos filmes de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub é Sinnlichkeit, aí está, prometido para os primeiros dias de Março: Le coffret Volume 2, La période italienne. Dvd 1: De la nuée à la résistance (1978) - 101 mn Couleur Dvd 2: Ces rencontres avec eux (2005) - 66 mn Couleur Dvd 3: Sicilia! (1998) - 64 mn N&B et Sicilia! (version théâtrale) sans sous-titre Dvd 4: Fortini / Cani (1976) - 83 mn Couleur. Como há pouco disse a um amigo (cheguei a dizer?), um dia as pessoas vão perceber que precisam destes filmes (a memória da humanidade) — e eles existem, é isso que importa.
Lektion 85 (die Alltäglichkeit)
Jean-Marie Straub — Die Sinnlichkeit ist nie banal. Die Sinnlichkeit keines Menschen…
Nein, die ist … um Gottes Willen, da hab ich mich falsch ausgedrückt… die Alltäglichkeit, die ist banal, nicht die Sinnlichkeit selber.
Jean-Marie Straub — Nein! Nein! Die Alltäglichkeit ist Poesie, und sollte Poesie sein!
Danièle Huillet — Die Alltäglichkeit hat viel mehr Phantasie als alles, was Sie sich als Individuum ausdenken können.
Jean-Marie Straub — Die Alltäglichkeit hat viel mehr Vielfalt und Erfindungskraft als die Imagination des größten Künstlers.
Materialien zu KLASSENVERHÄLTNISSE. Von Danièle Huillet und Jean-Marie Straub, nach Franz Kafka
Nein, die ist … um Gottes Willen, da hab ich mich falsch ausgedrückt… die Alltäglichkeit, die ist banal, nicht die Sinnlichkeit selber.
Jean-Marie Straub — Nein! Nein! Die Alltäglichkeit ist Poesie, und sollte Poesie sein!
Danièle Huillet — Die Alltäglichkeit hat viel mehr Phantasie als alles, was Sie sich als Individuum ausdenken können.
Jean-Marie Straub — Die Alltäglichkeit hat viel mehr Vielfalt und Erfindungskraft als die Imagination des größten Künstlers.
Materialien zu KLASSENVERHÄLTNISSE. Von Danièle Huillet und Jean-Marie Straub, nach Franz Kafka
Sexta-feira, Fevereiro 15
É noite ainda
O cansaço provoca-me um certo desentendimento das coisas. Assim como os olhos fogem para um ponto impreciso, também os pensamento vão para os sítios mais inexplicáveis. O efeito de "Casa de Lava" e uns quantos textos lidos durante esta semana à hora do almoço, ao sol, levaram-me a prosseguir um retrato de Ventura à revelia do bom senso. Entretanto, mas não completamente por acaso (sabemos lá o que é o acaso), comprei a "Antígona" de Sófocles (os livros da Fundação Calouste Gulbenkian são baratos e macios) e de repente tudo se encadeou: isto que Pedro Costa anda a fazer com os amigos do Bairro das Fontainhas não será uma espécie de negativo* do que fazem Huillet e Straub no bosque italiano? Sempre me pareceu reconhecer em Ventura o passo leve da bem decidida Antígona** — não tem nada a ver com as particularidades da história, é anterior, uma questão corporal, de gestos e posições. Antígona e Ventura são iguais ou, para ser mais exacta, são da mesma família.
Quando abri o livro, há pouco, logo na primeira página (Antígona e Ismena saem do palácio. É noite ainda), descobri as palavras "ventura", e mais abaixo, "em marcha". Não estou a inventar, as palavras estão impressas; trata-se, sem dúvida, de uma coincidência insignificante que me faz rir e engolir em seco ao mesmo tempo.
__________
* aqui sim, seria apropriado desenvolver o conceito e falar do que poderia ser o cinema punk
"Antígona" é anterior ao bosque, o bosque é meia metáfora.
Quando abri o livro, há pouco, logo na primeira página (Antígona e Ismena saem do palácio. É noite ainda), descobri as palavras "ventura", e mais abaixo, "em marcha". Não estou a inventar, as palavras estão impressas; trata-se, sem dúvida, de uma coincidência insignificante que me faz rir e engolir em seco ao mesmo tempo.
__________
* aqui sim, seria apropriado desenvolver o conceito e falar do que poderia ser o cinema punk
"Antígona" é anterior ao bosque, o bosque é meia metáfora.
Et comme il est beau le jeune marcheur!
— On vieillit en tournant. Ce n’est pas un malheur. Ce film a à voir avec ça. Ventura, le héros, a 53 ans et moi 48. Du coup, il y a beaucoup de moi dans le film. Je me demandais si, en 1975, au lieu de jouer de la guitare avec un drapeau anarchiste et trois cons derrière, j’avais croisé Ventura, qui est venu au Portugal pour travailler et gagner un peu de fric, n’aurait-il pas été terrifié par cette idée de révolution. J’ai forcément croisé ce type, et c’est de ça dont le film veut aussi parler.
— Oui, on vieillit en tournant. Chaque fois les tournages sont plus longs, chaque fois on a plus de mémoire et chaque fois on est lourd de plus de morts. Ventura, je l’ai découvert pendant le tournage de la Chambre de Wanda. Le quartier était alors très dur, livré aux dealers, il y avait des sentinelles postées à tous les coins. Il était plus âgé, toujours assis sur un canapé, bizarre, il me regardait en souriant, gentiment, on taillait le bout de gras. Je le prenais pour une sentinelle. Mais non, c’était son état: il ne dort pas. Il est le fou du quartier, le tragique de Fontainas, très respecté. Il est arrivé à Lisbonne à 19 ans, très beau, Capverdien, maçon. Quand je l’ai timidement approché pour le filmer lui, il a dit oui très naturellement. Ce n’était pas évident: il est le protecteur de tout le quartier.
Qu’est-ce qui vous différencie d’un documentariste ?
— La fiction que je me fais. Moi je voulais vieillir avec ce type, être à côté de lui pendant le film, pendant deux ou trois ans. Vieillir ensemble, au risque de le perdre, mais quand même en apprenant quelque chose. Le film est sans doute tourné vers le passé : les lettres d’amour, tout ça. Ce lyrisme doit venir de l’âge. Quand j’étais jeune, dans les westerns, quand les personnages disaient «Ma’», je ne comprenais jamais si c’était la grand-mère, la dame ou la maman. Ventura, c’est un peu la figure de substitution, le grand-père de tout le monde, comme dans les Raisins de la colère de Ford. Pendant le tournage, tout le monde allait assez mal : le film est devenu très noir et le titre, que l’on avait décidé avant de tourner, est devenu amer. Juventude em marcha est un chant. «Marche», comme marche la pensée. «Jeunesse» comme celle, éternelle, de Ventura. Au fond, je le vois comme un jeune marcheur.
Pedro Costa, Libération
— Oui, on vieillit en tournant. Chaque fois les tournages sont plus longs, chaque fois on a plus de mémoire et chaque fois on est lourd de plus de morts. Ventura, je l’ai découvert pendant le tournage de la Chambre de Wanda. Le quartier était alors très dur, livré aux dealers, il y avait des sentinelles postées à tous les coins. Il était plus âgé, toujours assis sur un canapé, bizarre, il me regardait en souriant, gentiment, on taillait le bout de gras. Je le prenais pour une sentinelle. Mais non, c’était son état: il ne dort pas. Il est le fou du quartier, le tragique de Fontainas, très respecté. Il est arrivé à Lisbonne à 19 ans, très beau, Capverdien, maçon. Quand je l’ai timidement approché pour le filmer lui, il a dit oui très naturellement. Ce n’était pas évident: il est le protecteur de tout le quartier.
Qu’est-ce qui vous différencie d’un documentariste ?
— La fiction que je me fais. Moi je voulais vieillir avec ce type, être à côté de lui pendant le film, pendant deux ou trois ans. Vieillir ensemble, au risque de le perdre, mais quand même en apprenant quelque chose. Le film est sans doute tourné vers le passé : les lettres d’amour, tout ça. Ce lyrisme doit venir de l’âge. Quand j’étais jeune, dans les westerns, quand les personnages disaient «Ma’», je ne comprenais jamais si c’était la grand-mère, la dame ou la maman. Ventura, c’est un peu la figure de substitution, le grand-père de tout le monde, comme dans les Raisins de la colère de Ford. Pendant le tournage, tout le monde allait assez mal : le film est devenu très noir et le titre, que l’on avait décidé avant de tourner, est devenu amer. Juventude em marcha est un chant. «Marche», comme marche la pensée. «Jeunesse» comme celle, éternelle, de Ventura. Au fond, je le vois comme un jeune marcheur.
Pedro Costa, Libération
Quinta-feira, Fevereiro 14
onde?
Perto de minha casa havia uma sala de cinema. Era um bocado fria no inverno e sempre demasiado vazia: uns velhos, uns miúdos, gente sem importância nem dinheiro. Eu gostava de lá ir. Fechou, porque o tempo de cinemas de bairro acabou, aliás os bairros também estão no fim. Agora tudo se faz na periferia; ou em pequenos nichos, com um sentido de clã demasiado estreito para o meu gosto — perde-se o sentimento de anonimato que tanto me agrada na cidade.
Nos museus também, por vezes. Reverencia-se o cinema. Pode ajudar talvez, mas ajudar a quê? Não é de glória póstuma que o cinema precisa, é de espaço. O ano passado fui ao Chiado de propósito para ver o filme de Godard construído sobre o argumento de Passion. Domingo de manhã, o filme de uma ponta à outra — ficámos mais um bocado na sala porque, na verdade, estava-se muito bem dentro daquelas frases. [O cinema como uma fábrica. No cinema, as operárias apaixonam-se muitas vezes pelo patrão. Ela deverá gaguejar. A imponderabilidade e a graça. Ver os movimentos e os gestos que se procuram. Uma operariazinha, apenas isso. Entre o preto e o branco. E agora estás na região central. Estamos no fundo, bem no fundo da nossa memória. Podes inventar o mar, a página branca, a praia. Ver se o invisível fosse visível que poderiamos ver? A queda dos corpos. E eis a luz e eis a luz e eis a luz. A música. Sou cego não vejo nada e a música. Numa noite cheia de luz. Lutar contra si próprio é a mesma coisa que lutar contra o anjo. Poderias ficar a escrever muito depois de eu me ter ido deitar.] Entrou um grupo em visita, a voz da rapariga que fazia de guia era estridente, as pessoas olhavam para o écran à procura de qualquer coisa mas não tinham tempo para esperar nada, a rapariga falou em pós-cinema. O que é isso? Escassos minutos e foram embora. Na tela, Isabelle pedia justiça.
Voltando às questões (From black box to white cube), se a pergunta de Bazin se perde em voltas de carrocel (quantas quisermos e em ritmos variados), já a outra, percebe-se desde logo que não tem a ver apenas com o cinema mas com a vida na cidade e no mundo: a organização e ocupação do território. Logo, é uma pergunta política e só assim, parece-me, tem interesse ser pensada.
E a resposta não é, como Chris Dercon afirma, formosa e tão segura. Nem aqui, nem na China.
Nos museus também, por vezes. Reverencia-se o cinema. Pode ajudar talvez, mas ajudar a quê? Não é de glória póstuma que o cinema precisa, é de espaço. O ano passado fui ao Chiado de propósito para ver o filme de Godard construído sobre o argumento de Passion. Domingo de manhã, o filme de uma ponta à outra — ficámos mais um bocado na sala porque, na verdade, estava-se muito bem dentro daquelas frases. [O cinema como uma fábrica. No cinema, as operárias apaixonam-se muitas vezes pelo patrão. Ela deverá gaguejar. A imponderabilidade e a graça. Ver os movimentos e os gestos que se procuram. Uma operariazinha, apenas isso. Entre o preto e o branco. E agora estás na região central. Estamos no fundo, bem no fundo da nossa memória. Podes inventar o mar, a página branca, a praia. Ver se o invisível fosse visível que poderiamos ver? A queda dos corpos. E eis a luz e eis a luz e eis a luz. A música. Sou cego não vejo nada e a música. Numa noite cheia de luz. Lutar contra si próprio é a mesma coisa que lutar contra o anjo. Poderias ficar a escrever muito depois de eu me ter ido deitar.] Entrou um grupo em visita, a voz da rapariga que fazia de guia era estridente, as pessoas olhavam para o écran à procura de qualquer coisa mas não tinham tempo para esperar nada, a rapariga falou em pós-cinema. O que é isso? Escassos minutos e foram embora. Na tela, Isabelle pedia justiça.
Voltando às questões (From black box to white cube), se a pergunta de Bazin se perde em voltas de carrocel (quantas quisermos e em ritmos variados), já a outra, percebe-se desde logo que não tem a ver apenas com o cinema mas com a vida na cidade e no mundo: a organização e ocupação do território. Logo, é uma pergunta política e só assim, parece-me, tem interesse ser pensada.
E a resposta não é, como Chris Dercon afirma, formosa e tão segura. Nem aqui, nem na China.
Quarta-feira, Fevereiro 13
Vejo um homem com cauda. Onde? Por cima do leão. Se tem cauda é o diabo.
Está bem, esqueçamos André Bazin (demasiado díficil responder) e passemos à pergunta seguinte: onde está o cinema?

Eu digo (em voz muito baixa): no quarto de Bete.

Eu digo (em voz muito baixa): no quarto de Bete.
Terça-feira, Fevereiro 12
...
Herman Hublot achava-se sempre de um bom humor incrível.
- Ah-ah-ah! – rebentava de riso, a propósito de nada.
- Oh-oh-oh! – trovejava em espantosas gargalhadas, quase sufocando, por qualquer coisinha.
- Eh-eh-eh – continuava, sem parar.
Era uma tristeza ver um homem assim tão bonacheirão, sempre tão alegre. Dava pena.
- Ah-ah-ah! – rebentava de riso, a propósito de nada.
- Oh-oh-oh! – trovejava em espantosas gargalhadas, quase sufocando, por qualquer coisinha.
- Eh-eh-eh – continuava, sem parar.
Era uma tristeza ver um homem assim tão bonacheirão, sempre tão alegre. Dava pena.
The big sleep
"Anda por aí muita gente a rir-se dos ingleses que, segundo um estudo agora divulgado, acreditam que Sherlock Holmes, Robin dos Bosques e Os Três Mosqueteiros são seres reais e Churchill uma personagem de ficção. Ora basta ler jornais e ver TV para verificarmos que os portugueses não são menos crédulos que os ingleses. Uma assustadora percentagem de portugueses acredita, por exemplo, que Mário Lino existe e é ministro das Obras Públicas e, tendo adormecido durante a projecção do filme que passa no país há dois anos, julga que Maria de Lurdes Rodrigues, Teixeira dos Santos ou Manuel Pinho são de carne e osso e não alucinações que, como o Freddy Kruger de 'Pesadelo em Elm Street', personificam os seus piores medos. Coleridge observa que, de dia, as imagens geram sentimentos ao passo que, durante o sono, são os sentimentos que geram imagens. Assim, é natural que os medos dos professores (caos e desalento nas escolas, derrocada do sistema de ensino) suscitem neles a imagem 'uncanny' de Maria de Lurdes Rodrigues e que essa imagem lhes pareça real. E do mesmo modo, nos outros casos, trabalhadores, empresários e cidadãos em geral. A solução é acordar e esfregar os olhos. O problema é que o filme tem uma banda sonora suave e embaladora, propícia à sonolência."
Manuel António Pina
Manuel António Pina
Segunda-feira, Fevereiro 11
A mulher que sobreviveu a todos
"E esta?
Havia uma mulher que sobreviveu a todos.
Os escritores iam morrendo, e ela sempre viva. Os editores faliam; nos secundários, nas universidades, extinguiam-se as vias literárias; e ela, milenar, sempre viva.
Um dia, o último homem de letras, exilado nas paisagens brancas de Mustajoki, duzentos km a norte de Sodankylä, deu o último suspiro. Prevenida por um vento de mau agoiro, deslocou-se logo para lá.
Tarde demais. Verteu uma lágrima na alva paisagem. Do chão, intempestiva, brotou uma passiflora incarnata.
Nunca mais ninguém escreveria a sua história.
manel"
Havia uma mulher que sobreviveu a todos.
Os escritores iam morrendo, e ela sempre viva. Os editores faliam; nos secundários, nas universidades, extinguiam-se as vias literárias; e ela, milenar, sempre viva.
Um dia, o último homem de letras, exilado nas paisagens brancas de Mustajoki, duzentos km a norte de Sodankylä, deu o último suspiro. Prevenida por um vento de mau agoiro, deslocou-se logo para lá.
Tarde demais. Verteu uma lágrima na alva paisagem. Do chão, intempestiva, brotou uma passiflora incarnata.
Nunca mais ninguém escreveria a sua história.
manel"
— Neither do I, Emma.
Um dos meus filmes preferidos de John Ford. Para rever às 22h10, na rtp memória. Sete mulheres".

Ford teve sorte. Fez os filmes como quem faz uma mesa ou uma cadeira. E o que ele se ria da palavra autor. Mas voltando ao filme, que este aparte é demasiado malicioso, o que me intriga é: como raio é que estes homens velhos, Ford nesta Missão na China, ou Dreyer com a sua Gertrud, sabem todas aquelas coisas íntimas sobre as mulheres? Sem pieguices nem arrasto... Estive a pensar nisto e creio que eles próprios não sabiam lá muito bem, por isso é que fizeram os filmes. Para desafiar o mistério. And it's true, she looks a lot like John Wayne — something in her eyes.

Ford teve sorte. Fez os filmes como quem faz uma mesa ou uma cadeira. E o que ele se ria da palavra autor. Mas voltando ao filme, que este aparte é demasiado malicioso, o que me intriga é: como raio é que estes homens velhos, Ford nesta Missão na China, ou Dreyer com a sua Gertrud, sabem todas aquelas coisas íntimas sobre as mulheres? Sem pieguices nem arrasto... Estive a pensar nisto e creio que eles próprios não sabiam lá muito bem, por isso é que fizeram os filmes. Para desafiar o mistério. And it's true, she looks a lot like John Wayne — something in her eyes.
Domingo, Fevereiro 10
Leben ist Tod, und Tod ist auch ein Leben

Foi já há mais de um ano, "Juventude em Marcha" apanhou-me em cheio e no sítio mais vulnerável. Talvez por distraccção, ou circunstância de viver na província, nunca cheguei a ver todos os filmes de Pedro Costa. Mas há uns tempos comecei a pensar que o cinema dele é uma coisa só, quer dizer, os filmes estão intrincados uns nos outros e para compreender Ventura teria de voltar atrás, recolher pistas, refazer o percurso. Graças a um amigo brasileiro, e por via de um circuito subterrâneo de distribuição (muito mais justo que a distribuição nojenta que domina as salas dos centros comerciais — e não há outras em redor), vi ontem, pela primeira vez, "Casa de Lava". Inês e Pedro vêm d' "O Sangue" e ela, apesar de se chamar Mariana, transporta um morto-vivo. Voltam os dois à mesma frase "Pede-me coisas" — aí está: tudo de novo em redemoínho. Mais adiante, vi a carta nas suas mãos e reconheci as palavras, porque é uma língua nova que aprendo, adocicada como a morte e como aquele vento que levanta pó (Bida di gossi é bida mariado!) E ouvi o grito de liberdade que é um grito de festa também. E então percebi que Ventura já estava ali entranhado, no homem que toca violino mas nunca fez serenatas e tem tantos filhos que nem sabe; no Leão que é o seu próprio nome; nas imagens do vulcão filmadas pelo mestre Orlando Ribeiro; naquela terra escura; e até no cão. É de todas essas coisas sem qualquer compreensão que vem Ventura; o seu enigma é o enigma do que é eterno. Num tempo em que os deuses fugiram, sabe-se lá para onde na floresta, Ventura existe para assombrar a nossa vida — assim acredito, e também sou capaz de jurar que Hölderlin escreveu In lieblicher Bläue... só para ele.
Lektion 84
Auch eine Blume ist schön, weil sie blühet unter der Sonne. Es findet das Aug' oft im Leben Wesen, die viel schöner noch zu nennen wären als die Blumen. O! ich weiß das Wohl!
Sábado, Fevereiro 9
falta contar a história do homem sem nome
"Era uma vez um homem que não tinha nome.
Tecnicamente, o caso não era difícil. Em lugar do nome, no bilhete de identidade, vinha uma cruz, pelo que ele assinava de cruz. As pessoas pensavam que era analfabeto, mas não, era apenas analfabético. Quando tinha de preencher o nome, por exemplo, numa ficha de inscrição escrevia 'na' (eng, 'non available') ou 'nd' (pt, 'não disponível'; fr, 'non disponible'; es, 'no disponible'), 'ah' (el, 'anhyparcho'), 'ei' (su, 'ei'), 'nv' (de, 'nicht vorhanden'), etc. Isto para o aspecto técnico. Só que...
Só que, como não tinha nome, não se sabia o sexo dele/dela (atrás, onde se lê 'homem', leia-se 'pessoa'). Nem ele/ela sabia. Também não se sabia quem era o pai, nem quem era a mãe de tal ente. Nem ele próprio sabia e sentia-se quase transparente. Por aí fora, sucessivamente, ia sendo sugado pelo grande buraco negro da verdade, e a verdade é que não tinha história.
Claro, esta história precisa dum pouco mais de rendilhados e rodriguinhos, mas o sentido geral é este.
manel"
Tecnicamente, o caso não era difícil. Em lugar do nome, no bilhete de identidade, vinha uma cruz, pelo que ele assinava de cruz. As pessoas pensavam que era analfabeto, mas não, era apenas analfabético. Quando tinha de preencher o nome, por exemplo, numa ficha de inscrição escrevia 'na' (eng, 'non available') ou 'nd' (pt, 'não disponível'; fr, 'non disponible'; es, 'no disponible'), 'ah' (el, 'anhyparcho'), 'ei' (su, 'ei'), 'nv' (de, 'nicht vorhanden'), etc. Isto para o aspecto técnico. Só que...
Só que, como não tinha nome, não se sabia o sexo dele/dela (atrás, onde se lê 'homem', leia-se 'pessoa'). Nem ele/ela sabia. Também não se sabia quem era o pai, nem quem era a mãe de tal ente. Nem ele próprio sabia e sentia-se quase transparente. Por aí fora, sucessivamente, ia sendo sugado pelo grande buraco negro da verdade, e a verdade é que não tinha história.
Claro, esta história precisa dum pouco mais de rendilhados e rodriguinhos, mas o sentido geral é este.
manel"
Sexta-feira, Fevereiro 8
Em dash
indicações gráficas para o André:
The em dash, or m dash, m-rule, etc., (—), indicates a parenthetical thought—like this one—or some similar interpolation. Its name derives from its defined width of one em (originally the width of the letter m), which is the length, expressed in points, by which font sizes are typically specified. Thus in 9-point type, an em is 9 points wide, while the em of 24-point type is 24 points wide, and so on. (By comparison, the en dash, with its 1-en width, is 1/2 em wide in any font.)...
The em dash, or m dash, m-rule, etc., (—), indicates a parenthetical thought—like this one—or some similar interpolation. Its name derives from its defined width of one em (originally the width of the letter m), which is the length, expressed in points, by which font sizes are typically specified. Thus in 9-point type, an em is 9 points wide, while the em of 24-point type is 24 points wide, and so on. (By comparison, the en dash, with its 1-en width, is 1/2 em wide in any font.)...
Quinta-feira, Fevereiro 7
"desculpa estar a chatear-te com estas coisas.
Mas podias contar a história do homem que caiu no esquecimento. Eu contava, de boa vontade, mas nem me lembro do nome.
manel"
Mas podias contar a história do homem que caiu no esquecimento. Eu contava, de boa vontade, mas nem me lembro do nome.
manel"
Quarta-feira, Fevereiro 6
Ai meu deus, qu'eu já vi isto no animatógrafo!
Mais uma pequena história gelada. Peter Stein em declarações recolhidas por Georges Banu para o filme Tchekhov, le témoin impartial, ARTE/INA 1994 e transcritas nos «Cadernos Tchékhov - vol. 1 | O Tio Vânia»:... É preciso recordar a famosa história segundo a qual ele [Anton Tchékhov] pretendia romper com o realismo e escrever, depois de O Cerejal, uma peça passada no Pólo Norte onde só há neve e gelo. Um naufrágio nessas paragens.
história dum gajo Esphodalio Pinto
"desculpa estar a chatear-te com estas coisas.
Mas podias contar aquela história dum gajo Esphodalio Pinto que mentia ao médico, mas não fazia mal porque o médico não lhe ligava nenhuma estava sempre a fazer as palavras cruzadas do expresso.
O engraçado desta história é que o médico levava pelo menos uma semana a fazer as palavras cruzadas do expresso.
manel"
Mas podias contar aquela história dum gajo Esphodalio Pinto que mentia ao médico, mas não fazia mal porque o médico não lhe ligava nenhuma estava sempre a fazer as palavras cruzadas do expresso.
O engraçado desta história é que o médico levava pelo menos uma semana a fazer as palavras cruzadas do expresso.
manel"
Terça-feira, Fevereiro 5
за здоровье
Mal acabei de publicar as últimas palavras d' O Gingal e logo me arrependi: para quê tanto dramatismo? Já bastou a Tchékhov ter que aturar o exagerado Stanislavski. É preciso acrescentar qualquer coisa, uma outra imagem que nos devolva o sorriso, mesmo que continuemos a chorar:
— Faz tempo que não bebo champanhe!
Vês, assim está muito melhor.
— Faz tempo que não bebo champanhe!
Vês, assim está muito melhor.
Segunda-feira, Fevereiro 4
com um gemido, com um estrondo
O fim d' O Gingal, é nisso que penso ainda. A personagem menos importante da peça, um velho criado, doente e esquecido por todos, diz, ou resmunga, a última fala. E com que palavras justas o faz — mal-amanhado... sim, sem dúvida. A seguir o mundo desaba:
Saem.
O palco está vazio. Ouve-se a serem fechadas à chave todas as portas e, depois, todas as carruagens a partirem. No meio do silêncio soa o bater surdo do machado contra uma árvore, solitário e triste.
Ouvem-se passos. Pela porta à direita aparece Firss. Está vestido como sempre, de casaco e colete branco, anda de pantufas. Está doente.
FIRSS — (aproximando-se da porta, deita a mão à maçaneta) — Fechada... (Senta-se no sofá.) Esqueceram-se de mim... Não faz mal... fico aqui sentado... De certeza que Leonid Andréitch não vestiu a peliça, foi de sobretudo... (Suspira, preocupado.) Descuido-me um pouco, e pronto... Ah, estes jovens! (Murmura qualquer coisa incompreensível.) A minha vida passou e foi como se não a tivesse vivido... (Deita-se.) Vou ficar aqui deitado um bocadinho.... Já não tens forças, já não tens mais nada... Ah, seu mal-amanhado!... (Queda-se imóvel.)
Ouve-se um som longínquo, como que vindo do céu, o som de uma corda rebentar e, depois, a esmorecer tristemente. Cai o silêncio e apenas se ouve ao longe, no gingal, o machado a bater contra a árvore.PANO
Apresentação de "Um Poeta a Mijar"
"O livro 'Um Poeta a Mijar' de A. Pedro Ribeiro vai ser apresentado no próximo dia 6 de Fevereiro, quarta-feira, pelas 23h30 no bar Púcaros no Porto (à Alfândega). O evento conta com a presença do autor, dos diseurs Luis Carvalho e Isaque Ferreira, do crítico Xxx Yyyyyy Zzzzzz e dos editores Ricardo de Pinho Teixeira e Adriana Pereira."
este mundo tchekhoviano pardacento
(...) Aconselho do fundo do coração que abram o maior número possível de vezes os livros de Tchékhov (mesmo nas traduções que eles sofreram) para, esquecidos de tudo, viverem estes sonhos fabulosos tal como foram concebidos. No século dos Golias, torres de força, é útil lembrarmo-nos dos frágeis Davides. Paisagens tristes, salgueiros estiolados inclinados ao longo dos caminhos lamacentos, gralhas cinzentas a atravessarem o céu cinzento, uma recordação que inesperadamente soprou de um canto miserável — toda esta comovedora imprecisão, toda esta amorável fraqueza, todo este mundo tchekhoviano pardacento murmurado em voz baixa é digno de ser guardado no meio do brilho dos poderosos e convencidos mundos que nos prometem os adoradores de Estados Totalitários.
Vladimir Nabokov, do prefácio ao primeiro volume de Contos de Anton Tchékhov (tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, edição da Relógio d' Água, Julho de 2001)
Vladimir Nabokov, do prefácio ao primeiro volume de Contos de Anton Tchékhov (tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, edição da Relógio d' Água, Julho de 2001)
Livros que começam às nove da manhã
Trabalho há quase quinze anos num escritório. Entro às 9h00 e saio depois das 18h00. Muitas vezes, bastante depois das 18h00. Passo mais tempo com os meus colegas de trabalho do que com a minha família ou os amigos mais íntimos. Conheço bem o ambiente dos gabinetes e sei que nas mãos certas o escritório pode ser o mais extraordinário dos temas literários. Basta pensar em Kafka, Pessoa ou Walser. É um filão que não se esgota. Pensem no "Office", a obra-prima de Rick Gervais e Stephen Merchant. Pois bem, provavelmente nem sequer irei ler este romance de Joshua Ferris (ainda me faltam muitos, muitos clássicos), que parte justamente de histórias ocorridas numa agência de publicidade dos nossos dias. Mas gostei da crítica de Rodrigo Fresán a propósito do livro que, pelos vistos, foi escolhido pelo New York Times como um dos cinco melhores do ano. Gostei porque resume uma grande parte da minha vida.
Domingo, Fevereiro 3
abrir uma porta

Deixei-me levar pelo entusiamo de Angela Schanelec por Tchékhov; logo que pude passei d' «A Gaivota» (1895) para «O Ginjal» (1903). A peça acaba com um som terrível (os sons têm essa capacidade estranha de nos assustarem como nenhuma palavra consegue).
Qual é a Acção? Estranha acção esta, sem uma verdadeira acção:E hoje, com muita chuva e vento e chá preto (a falta que me faz um samovar...), avanço para «Três Irmãs» (1900). As traduções de ambas as peças são de Nina Guerra e Filipe Guerra, para quem seguem os agradecimentos habituais. Da introdução, uma pequena e mui esclarecedora nota de Tchékhov:
Acto I: O Ginjal está ameaçado de ser vendido.
Acto II: O Ginjal vai ser vendido.
Acto III: O Ginjal é vendido.
Acto IV: O Ginjal foi vendido.
De que fala?
De como se libertar da infância.
Da falta, de estar em falta.
De faltar. Da privação.
Das palavras que se pronunciam e que não são as boas.
Das palavras para não dizer nada, das palavras a torto e a direito.
Das frases ditas bem demais e das palavras desajeitadas.
Tudo está sempre “ao lado”. Cedo demais. Ou tarde demais.
Com ternura. Com ferocidade.
Com emoção. Com indiferença.
E todos aqueles objectos partidos ou perdidos.
Dos noivados frustrados.
Da propriedade vendida.
Das árvores que se abatem.
Dos sonhos ilusórios de um futuro radioso, enquanto se esquece em casa o fiel representante da ordem antiga.
De um mundo que está condenado a desaparecer. O vento da História começa a soprar.
...
a ler na íntegra, o bonito texto de Christine Laurent, Últimos momentos antes da catástrofe
Na vida, os homens não andam por aí a matar-se, a enforcar-se, a fazer declarações de amor a cada passo. Não dizem coisas patéticas a todo o momento. Comem, bebem, dizem disparates. Pois bem, é isso que é preciso mostrar no palco. Será preciso escrever uma peça em que as pessoas cheguem, se vão embora, comam, falem disso e daquilo, joguem às cartas, e não porque o autor tenha necessidade de tudo isso, mas porque tudo isso se passa assim na realidade.Também tem a ver com os filmes de Angela Schanelec, não tem? Mas contradiz, de certo modo, o que escrevi algumas semanas atrás... ora aqui está um método de aproximação dispersiva que não aconselho a ninguém Ah, se fosse possível falar de cinema!
Sábado, Fevereiro 2
Acreditava descobrir na natureza, tanto animada como inanimada, alguma coisa que só se manifestava sob a forma de contradições, e que não se podia encaixar em nenhum conceito, e ainda menos numa palavra (...) Parecia comprazer-se só com o impossível, e afastar de si com desprezo o que era possível. A essa essência, que entre todas as outras parecia interpor-se, separá-las, uni-las, chamava-lhe eu o demoníaco, seguindo o exemplo dos antigos (...) lutava por escapar desse ser terrível, procurando auxílio, de acordo com o meu costume, atrás de uma imagem.
Goethe, Dichtung und Wahrheit (Poesia e Verdade), 4ª Parte, Livro XX — traduzido e citado por Maria Filomena Molder no prefácio de Torquato Tasso
Goethe, Dichtung und Wahrheit (Poesia e Verdade), 4ª Parte, Livro XX — traduzido e citado por Maria Filomena Molder no prefácio de Torquato Tasso
Sexta-feira, Fevereiro 1
indução a frio, segundo método de Konstanz Kzerchap
Cinematógrafo não é uma posição, mas um conjunto de posições*, melhor dizendo: uma arte marcial. As regras foram definidas por um pintor enigmático e atraente, do século passado. A prática é quase clandestina. Geralmente quem se mete nisso acaba por partir o pescoço. "O que é uma pena para a indústria nacional", diz o tipo que está ao meu lado a ler o "Destak" e tem mesmo cara de se chamar Serafim qualquer coisa.
Schänelec (atenção ao trema sobre o "a"; também pode escrever-se "ae") é o nome de umas cápsulas contra a indisgestão. São pequenas, brancas e têm um leve travo a crisântemos. Porque provocam habituação e sonhos divertidos, foram retiradas do mercado. Entretanto, o laboratório na China transformou-se em sociedade anónima e já está cotado na Bolsa de Mercadorias e Futuros. (Também são indicadas para dores nas costas e outras maleitas ocasionais; em alemão, o trema — explica tão bem a wikipédia — é usado sobre vogais articuladas na parte de trás da boca para que o som destas seja trazido para diante, nem mais: como dar de chofre com uma suntuosa marquise lusitanus.)
E assim se prova que certas propriedades não são verdadeiras para todas as coisas naturais. Houdini.
_______________
* ou disposições?
Schänelec (atenção ao trema sobre o "a"; também pode escrever-se "ae") é o nome de umas cápsulas contra a indisgestão. São pequenas, brancas e têm um leve travo a crisântemos. Porque provocam habituação e sonhos divertidos, foram retiradas do mercado. Entretanto, o laboratório na China transformou-se em sociedade anónima e já está cotado na Bolsa de Mercadorias e Futuros. (Também são indicadas para dores nas costas e outras maleitas ocasionais; em alemão, o trema — explica tão bem a wikipédia — é usado sobre vogais articuladas na parte de trás da boca para que o som destas seja trazido para diante, nem mais: como dar de chofre com uma suntuosa marquise lusitanus.)
E assim se prova que certas propriedades não são verdadeiras para todas as coisas naturais. Houdini.
_______________
* ou disposições?
Escrito por si mesmo
"Robinson Crusoe fue publicado en 1719 sin el nombre de su autor, pero la portada rezaba 'escrito por Sí Mismo', por lo que podría decirse que aparecía bajo el seudónimo Robinson Crusoe."
(...)
"Jonathan Swift transcribió con la letra de otro hombre una parte de 'Los viajes de Gulliver' y la dejó en secreto en la casa del editor Benjamin Motte. El manuscrito iba acompañado de una carta de un tal Richard Sympson, supuesto primo de Gulliver, y ofrecía el resto de los Viajes a cambio de 200 libras. Motte aceptó la oferta misteriosa y unas noches después recibió el resto del libro."
Um pequeno texto sobre a prática do anonimato na literatura britânica, incluído na Revista Ñ.
(...)
"Jonathan Swift transcribió con la letra de otro hombre una parte de 'Los viajes de Gulliver' y la dejó en secreto en la casa del editor Benjamin Motte. El manuscrito iba acompañado de una carta de un tal Richard Sympson, supuesto primo de Gulliver, y ofrecía el resto de los Viajes a cambio de 200 libras. Motte aceptó la oferta misteriosa y unas noches después recibió el resto del libro."
Um pequeno texto sobre a prática do anonimato na literatura britânica, incluído na Revista Ñ.







