Quarta-feira, Dezembro 22

aos queridos leitores,

contra todos os princípios, resolvi escolher o meu melhor post do ano. É este e nem fui eu que o fiz. Serve para aguentar até Janeiro. Se puderem, abusem das guloseimas e dos passeios na neve. Boa noite.

Il fantasma di Fabrice Borel

L'eternità è una rottura. Ma ciascun morto ha i suoi metodi particolari per combattere la noia. L'attore Fabrice Borel, per esempio, continuò a fare teatro dopo la morte. Era molto richiesto per il personaggio del padre di Amleto, poiché era uno dei suoi più superbi interpreti.
Quasi ogni stagione il fantasma di Borel ritornava in mezzo ai vivi per stupire i grandi palcoscenici mondiali:
- Amleto, io sono lo spirito di tuo padre.
E pronunciava la battuta nella sua voce terribile di morto, e in modo così convincente che il pubblico ghiacciava sulle poltrone, strappando applausi entusiastici e critiche eccellenti sui giornali.
Tutto andò molto bene per anni e anni e anni e anni. Fino al giorno in cui, durante una rappresentazione presso il Theater an der Winkelwiese (*), gli cadde addosso parte dello scenario, provocando la sua morte immediata. La sua seconda morte, ben inteso. Dopo l'incidente, che sconvolse il mondo dell'arte e il pubblico dell'epoca, decise di abbandonare definitivamente il teatro. Attualmente, si dedica al commercio di cavalli.

(*) Winkelwiese, 4, 8001 Zurigo.

O Fantasma de Fabrice Borel, conto incluído em Doutor Avalanche. Traduzido para o italiano por Stefano Valente.

Animais escritos

Terça-feira, Dezembro 21

De manhã faltam os risos e os disparates dos miúdos nos autocarros.
Q: If you were doing a whole literary fuckfest, what other authors would be on your list?

RB: I would fuck Kurt Vonnegut, Philip Roth and J.K. Rowling. Those are the top of my orgy list. My current favorite reads are comic books by Bryan K. Vaughan. Just finished "Y: The Last Man" and updated myself on "Ex Machina."

Rachel Bloom, a propósito do seu videoclip "Fuck Me, Ray Bradbury".
[Via Provas de Contacto.]

Fonemoramas

Si canto soy un cantueso
Si leo soy un león
Si emano soy una mano
Si amo soy un amasijo
Si lucho soy un serrucho
Si como soy como soy
Si río soy un río de risa
Si duermo enfermo de dormir
Si fumo me fumo hasta el humo
Si hablo me escucha el diablo
Si miento invento una verdad
Si me hundo me Carlos Edmundo

Carlos Edmundo de Ory.

Domingo, Dezembro 19


Influenciado pelo cinema mudo; enquadra muitas vezes como Bresson; faz planos de corte e pausa em homenagem a Ozu; gosta de vermelho, tango e rock 'n roll; tem um sentido de humor discreto e enviesado; utiliza as palavras como os gangsters utilizam as armas nos filmes negros; as suas personagens são lentas e deslocadas, não têm onde cair mortas. Concluído o pequeno ciclo da trilogia proletária (ou de fracassados que vivem abaixo de cão, se optarmos por uma tradução menos marxista), gostava de desenvolver esta breve descrição do cinema de Aki Kaurismäki mas o quarto onde está o computador é o mais frio da casa — não tão frio como a Finlândia.

Sábado, Dezembro 18

Finalmente, "Petersburgo", de Andrei Béli, em português de Portugal (até agora tínhamos apenas a tradução brasileira, da editora Ars Poetica). Esta nova tradução chega-nos pelas mãos de Nina Guerra e Filipe Guerra. Um Natal mais feliz.

A Rua da Vergonha (Akasen Chitai), de Kenji Mizoguchi, passa hoje às 19h00 na Sala Dr. Félix Ribeiro da Cinemateca. (Li três vezes o texto publicado no cinecartaz e não consegui perceber se é hilariante ou se eu ainda estou a dormir.)

Sexta-feira, Dezembro 17

Reflexões sobre a Arte

Mas sendo nós humildes e despretensiosos, no domínio da arte, as nossas investigações entre os monges e mártires pintados não foram inteiramente vãs. Esforçámo-nos muito por aprender. Conseguimos alguma coisa e dominámos certos aspectos, que talvez não tenham muita importância aos olhos dos especialistas, mas que a nós nos dão prazer, sendo que as nossas pequenas aquisições nos fazem tão orgulhosos como outros que aprenderam muito mais, e também nós adoramos exibi-las. Quando vemos um monge a passear com um leão e a olhar tranquilamente para o céu, sabemos logo que se trata de São Marcos. Quando vemos um monge com um livro e uma pena, a olhar tranquilamente para o céu a ver se encontra a palavra certa, reconhecemos logo São Mateus. Quando vemos um monge sentado numa rocha, a olhar tranquilamente para o céu, com uma caveira humana ao lado e sem outros adereços, sabemos imediatamente que é São Jerónimo. Porque sabemos que ele gostava de viajar sem bagagem. Quando vemos um tipo a olhar tranquilamente para o céu, sem se aperceber que tem o corpo todo trespassado por setas, percebemos nesse instante que é São Sebastião. Quando vemos outros monges a olhar tranquilamente para o céu, mas sem outra marca distintiva, perguntamos sempre de quem se trata. E isto porque queremos humildemente aprender. Já vimos treze mil São Jerónimos, e vinte e dois mil São Marcos, e dezasseis mil São Mateus, e sessenta mil São Sebastiões, mais quatro milhões de monges sortidos, sem nome, e estamos em crer que quando tivermos visto mais algumas destas pinturas, e adquirirmos mais experiência, sempre havemos de começar a interessar-nos profundamente por elas como os nossos conterrâneos cultos da Amérique.

Mark Twain, A Viagem dos Inocentes. Tradução de Margarida Vale de Gato.

Quinta-feira, Dezembro 16

Tchekov chegou ao teatro português mais de meio século depois da morte dele, com duas pequenas excepções, três: a primeira (suponho que tenha sido a primeira vez que se falou do teatro de Tchekov) terá sido em 1927, num estudo de Eduardo Scarlatti publicado num volume a que ele chamou Ideias de Outros: há um capítulo sobre o teatro de Tchekov (...). Scarlatti faz uma aproximação entre o teatro de Tchekov e a sensibilidade portuguesa. A certa altura ele diz o seguinte (...): Em leves tonalidades as psicologias das personagens de Anton Tchekov sugerem a catástrofe pairando entre o ódio popular e a cegueira da nobreza na Rússia. O conto Ariana principia como se um escritor português o tivesse começado. E depois o Eduardo Scarlatti transcreve uma parte do conto acrescentando uma pequenina coisa em itálico e que eu vou dizer qual é: Quando os alemães ou os ingleses se encontram, falam no preço da lã e dos seus negócios pessoais. Quando nós russos nos encontramos, não falamos senão de mulheres e de assuntos abstractos, mas falamos principalmente de mulheres. E o Eduardo Scarlatti transcreve dizendo assim: Quando os alemães ou os ingleses se encontram, falam no preço da lã e dos seus negócios pessoais. Quando nós russos, portugueses, nos encontramos, não falamos senão de mulheres e de assuntos abstractos, mas falamos principalmente de mulheres. Isto não significa muita coisa a não ser que há uma grande similitude entre as personagens do teatro russo e certas personagens do teatro português. Ou entre a maneira de reagir dos russos e do teatro português. Eu penso que, nos portugueses, a vontade de fazer as coisas é muitas vezes subjugada por uma certa incapacidade de as fazer, uma certa resignação, uma certa submissão ao destino. E isso aproxima o teatro de Tchekov do teatro e da maneira de ser portuguesa.

Luís Francisco Rebelo, Tchekov em Cena.

Quarta-feira, Dezembro 15

Para além das posições desenhadas por Utagawa Kuniyoshi, o meu gato habituou-se, agora que está muito velho, a sentar-se no meu colo, inclinar a cabeça para baixo e encostá-la ao meu braço direito — fecha os olhos e deixa-se ficar assim muito tempo. Muro das lamentações, foi como classifiquei a posição. A legenda da imagem, obviamente, não corresponde ao gesto simples do gato; os gatos vivem num mundo sem legendas.
Nunca me importei de ter 20 visitas ou mesmo 3, desde que uma delas fosse Deus. De resto, para me guiar, ponho a bitola das visitas na seguinte base: a melhor e mais produtiva prostituta raramente ultrapassa as 25 visitas diárias. Actualmente, vou em 80!

Filipe Guerra.

Terça-feira, Dezembro 14

Todos os gatos o gato

Em Milão

Queríamos ir à Biblioteca Ambrosiana, e também fomos. Vimos um manuscrito de Virgílio, anotado com a letra de Petrarca, aquele senhor que se apaixonou pela Laura de outro homem e passou a vida a cantá-la com um amor que foi um desperdício completo de matéria-prima. As intenções eram boas, mas sem juízo nenhum. Trouxeram fama aos dois e fizeram brotar dos peitos sentimentais uma fonte inesgotável de compaixão por ambos. Mas quem disse uma única palavra a favor do pobre Sr. Laura (nem sei o outro nome dele). Quem o glorifica? Quem chora por ele? Quem o louva? Ninguém. Pensam que lhe terá agradado a ele o processo que tanto tem agradado ao resto do mundo? Pensam que lhe caiu no goto ter outro homem na peugada da mulher por toda a parte, e a fazer do nome dela um substantivo comum em todas as bocas fedorentas de alho de Itália com os seus sonetos às distintas sobrancelhas dela, sobre as quais não tinha quaisquer direitos de propriedade? Eles gozaram de fama e simpatia; ele ficou sem nada. É um exemplo especialmente pungente daquilo a que se chama justiça poética. Que seja: só que não condiz com as minhas noções do que está certo. É uma coisa viciada e pouco generosa.

Mark Twain, A Viagem dos Inocentes. Tradução de Margarida Vale de Gato.

"Doutor Avalanche" no Brasil

Para mais informações, clique aqui.

Segunda-feira, Dezembro 13

Em Génova

E ainda por cima, tal como em Paris, tínhamos um guia. Sejam todos os guias amaldiçoados. Este apresentou-se como o linguista mais virtuoso de Génova, no que ao inglês dizia respeito, sendo que além dele próprio só mais duas pessoas na cidade sabiam falar uma palavra de inglês. Mostrou-nos o sítio onde nasceu Cristovão Colombo, e depois de nos quedarmos diante dele a reflectir por um quarto de hora, disse que não era Colombo que ali tinha nascido mas antes a sua avó! Quando exigimos uma explicação para o seu comportamento, limitou-se a encolher os ombros e a responder num italiano bárbaro.

Mark Twain, A Viagem dos Inocentes. Tradução de Margarida Vale de Gato.

Domingo, Dezembro 12

Tradução de Eduardo Coelho Júnior. Com 79 desenhos de Georges Roux. 476 páginas. Lisboa: Companhia Nacional Editora [Sucessora de David Corazzi e Justino Guedes], 1889. /// Encadernação com lombada em pele, quatro nervos e gravação a ouro. Assinatura de posse no ante-rosto. Algumas manchas de humidade, das quais apenas uma significativa, nas últimas 15 páginas. Exemplar razoável.

Ficção-científica da segunda metade do século XIX, da autoria de um ocasional colaborador de Júlio Verne, com curiosas ilustrações da época. André Laurie, pseudónimo de Paschal Grousset, político, jornalista e tradutor, criou n’Os Exilados da Terra uma delirante história de aventuras lunares, na esteira de Cyrano de Bergerac, Jonathan Swift, Edgar Allan Poe e Júlio Verne.

Preço: 35 euros (vendido).

histoire(s) du cinéma #1

Sentei-me no sofá e tentei explicar a mim mesma o que são as HISTÓRIA(S) DO CINEMA; mas começava uma frase e ainda antes de a acabar já era outra frase. Numa escrita antiga eu poderia desenhar uma pirâmide enorme na parede branca e riscar até a parede ficar negra e assim representar o modo como Godard ergueu um monumento extensível (MATÉRIA E MEMÓRIA) feito de fragmentos (ou deveria dizer destroços, como o anjo de Benjamin?). Imagens, palavras, sons, a voz — uma saturação de signos magníficos que se banham na luz de sua ausência de explicação (Manoel de Oliveira).
Eu ensino ao gato duas ou três coisas práticas, ele ensina-me princípios de vida. Sem uma única palavra.

Sábado, Dezembro 11


Bulle Ogier em Belle toujours, às 22h39 na rtp2. (Prefiro sempre o Manoel de Oliveira dos amores difíceis.)

Sexta-feira, Dezembro 10

A coisa mais bela que já escreveram sobre o meu trabalho e os meus livros:

"Doutor Avalanche" é um livro generoso. A dedicatória, ao "leitor" e à "leitora", não é uma simples "captatio benevolentiae", mas revela uma genuína crença nos poderes da imaginação.
Muitas destas histórias precisam de facto do leitor, da leitora, só quem as lê as completa, quer em termos narrativos quer na questão do sentido. Essa generosidade é quase única na nova ficção portuguesa.


Pedro Mexia, no Ípsilon de hoje.

Quinta-feira, Dezembro 9

A la volée, entretien vidéo avec Jean-Claude Rousseau

Entretien vidéo de 55 minutes, tourné à bout de bras avec la webcam d’un netbook, dans un avion de retour du festival doclisboa.
Paroles autour de quelques noms et d’un mot : Génuflexion, Dominique Noguez, Teo Hernandez, Robert Bresson, Andy Warhol, Luis Buñuel, Danièle Huillet et Jean-Marie Straub, Giorgione, Johannes Vermeer et Piotr Anderszewski.
«Desde os meus tempos do IDHEC que queria filmar o Romance de Genji, o maior dos clássicos japoneses escrito há mil anos. É o meu projecto mais antigo. Só agora consegui arranjar coragem e dinheiro para o realizar, graças ao sucesso da Ilha em França. É a história, muito misteriosa, de um príncipe que seduz irresistivelmente toda a gente, mulheres e inimigos sem fazer esforço. É esse mistério que me seduziu a mim. (…) O Romance de Genji foi adaptado vezes sem conta no Japão. É a primeira vez que é transposto para o Ocidente, o que é uma responsabilidade enorme.»

Paulo Rocha, sobre o filme O Desejado, folhas da Cinemateca. Projecção às 22h00, no Passos Manuel.

Quarta-feira, Dezembro 8

A compositora [Kaija Saariaho] diz que inicialmente concebeu a ideia para a peça ["Lichtbogen"] quando viu as cores tremeluzentes e sublimes da Aurora Boreal no céu do Ártico - que encontram paralelo nas texturas com brilho difuso e linhas em arco da melodia da flauta. Já perto do final, é pedido ao executante de flauta alto que, enquanto toca, fale para o interior do instrumento, usando fonemas de uma tradução francesa da abertura de "The World" do poeta galês do século XVII Henry Vaughan:

I saw eternity the other night
Like a great ring of pure and endless light,
All calm as it was bright...


Anthony Burton, programa de sala do concerto do Remix Ensemble, na Casa da Música, 07.12.2010.

Henry ficou ali desconfortavelmente sentado sob a luz crua, agarrado à mão e a pensar que diabo lhe iria acontecer agora. Teria tido opção naquilo tudo, tinha escolhido? Claro que tinha de tentar salvar a vida de Cato, mas era isso que estava a fazer? Não podia ter ignorado a carta, não podia não ter aparecido ao encontro. E agora tinha para sempre na cabeça a ideia de ir para «a lista», a ideia de que se fosse culpado de traição, ou mesmo de falhanço, passaria a temer todos os homens estranhos, todos os sons estranhos, para o resto da vida. Não serviria de nada fugir para a América, aquela gente estava em toda a parte. O medo entrara na sua vida e ficaria com ele para sempre. Como era fácil para os violentos ganharem. O medo era irresistível, o medo era rei, nunca soubera isto nos tempos em que vivera livre e sem medo. Talvez o medo irracional fosse o pior de todos. Nesta situação, como podia ele calcular, como podia defender-se na sua mente Talvez sobrevivesse se fosse à polícia, mas nunca saberia, nunca estaria certo, nunca deixaria de esperar pelo golpe. Agora percebia como os ditadores se afirmavam. O pequeno grão de medo em cada vida era suficiente para manter milhões quietos. E recordou um quadro de Max em que um torturador, com ar bondoso e competente, torce o braço duma vítima aos gritos meio sufocada, enquanto uma figura parecida com Lenine puxa calmamente a persiana contra a noite. Era assim, essencialmente, no fundo, no fim. 

Henry e Cato, de Iris Murdoch, tradução de Maria Teresa Guerreiro, Cotovia, 1996, p. 274

Terça-feira, Dezembro 7

A primeira vez que Scottie vê Madeleine.








1. Podemos dizer que esta cena já tem os fios que se vão desenrolar até ao fim e aprisionar Scottie (a vertigem é uma teia?). Estamos num restaurante luxuoso, as paredes são forradas a papel vermelho, há muitos quadros com molduras douradas e muitas flores. A câmara dá-nos uma perspectiva por um lado muito aberta, vê-se o tecto com traves de madeira de onde pendem lustres; e por outro um bocado achatada ou claustrofóbica, o restaurante está cheio e parece quase não haver distância entre as pessoas (a vertigem é a expansão e contracção do espaço?). Scottie está sentado ao balcão, desconfortável na sua missão de reconhecer a mulher de um antigo colega para depois a vigiar. Hitchcock faz uma panorâmica pelas salas até chegar a Madeleine (ela traz uma écharpe verde esmeralda, a cor cola-se à pele) e aí, subitamente, corta para um plano subjectivo de Scottie, agora é ele quem a vê, de costas, através de uma porta que Hitchcock filma como se fosse um espelho. Esse plano, geometricamente perfeito, com a outra porta ao fundo triplicando os cortes do espaço, com a colocação da câmara no sítio certo, dá-nos a sensação da vertigem — parece que Madeleine atravessa um espelho (e de onde vem?). Hitchcock filma-a em grande plano, do lado direito, do lado esquerdo, como as fotografias que se tiram na prisão. Scottie está apanhado


2. A primeira vez que Scottie vê Judy e nela reconhece, ou crê reconhecer, Madeleine. Uma prova do acaso, uma armadilha desejada; ele vai pela rua e encontra-a com umas colegas, tão pouco sofisticada, tão vulgar no seu vestido verde, tão risonha. Segue-a até ao hotel — é isto que significa a palavra apanhado? estar preso a uma coisa, para além da vontade, para além do entendimento? Quer falar com ela, quer perceber — o quê? É um movimento involuntário, avança como um autómato, desamparado. Ela desmente, não é Madeleine, mostra-lhe a carta de condução, fotografias da família, mas o espelho... o espelho reflete a ilusão.


(Imagens retiradas de 1000 Frames of Vertigo)

outros objectos perdidos


Vertigo, de Alfred Hitchcock. Às 22h00, no cine-estúdio do Campo Alegre.
Entre Bresson e Hitchcock.

Lektion 98

«...und schon — o Luft
Luft, die den Neugeborenen umfängt,

Wenn droben er die neuen Pfade wandelt,

Dich ahnd' ich, wie der Schiffer, wenn er nah
Dem Blüthenwald der Mutterinsel kömmt,
Schon athmet liebender die Brust ihm auf

Und sein gealtert Angesicht verklärt
Erinnerung der ersten Wonne wieder!»

Jean-Marie Straub /Empedokles

Segunda-feira, Dezembro 6

Os acontecimentos mais interessantes não ocorrem nas inaugurações de exposições, mas nos ateliês, nas cozinhas e nas camas, onde continua um infinito diálogo sobre como, porquê, para quem fazer arte, ou se convém renunciar à arte como prática institucional e pôr o sinal de igualdade entre a arte e a vida.

Dmitry Vilensky, membro do colectivo russo Chto Delat?, presente em Serralves.

objectos perdidos


O que procuram mais é o mar ( e quem me dera que o blogue fosse impetuoso e macio como a calheta de Santa Cruz). Mas ontem alguém entrou duas vezes em busca da gabardine de Dominique Sanda.

Domingo, Dezembro 5

O caminho de volta

Volker saiu de casa com o propósito de caçar borboletas. Atravessou os prados, uma e outra vez. Não havia borboletas.
- Tarde demais, meu velho, tarde demais. A última borboleta tombou às mãos de um sueco de Kiruna – disse-lhe um astuto caçador de raposas que se escondera sob as raízes frias de um enorme carvalho.
Volker encolheu os ombros e regressou a casa.
Na manhã seguinte, decidiu dar caça aos estorninhos. Atravessou os bosques, um após outro. Mas os estorninhos tinham-se evaporado. Um caçador, que subira aos mais altos ramos de uma tília em busca de galinholas, informou-o que o último estorninho tinha acabado de voar para o prato de um outro sueco de Kiruna. Volker soltou um suspiro e retornou a casa.
No dia seguinte, saiu para caçar elefantes. Percorreu as longas savanas de um grande continente. Nem sinal de elefantes. Um caçador que andava por ali ergueu o indicador e disse-lhe que os de Kiruna tinham caçado todos os elefantes.
- Um espectáculo como nunca vi. Quanto mais penso nisso, mais a cabeça me anda à roda. Um jeu de massacre*. Os elefantes tombavam como moscas no fim do Verão. Não restou um único – disse o caçador.
Desta vez, Volker fez o caminho de regresso com uma fúnebre solenidade.
Na manhã seguinte, saiu de casa para caçar flores. Havia flores por toda a parte. De todos os tamanhos, formas, cores. Não é todos os dias que um caçador encontra oportunidade tão sedutora. De olhos faiscando, empunhou a arma e lançou um fogo cerradíssimo. Porém, sem resultado. As flores são extraordinariamente rápidas e estão habituadas a lidar com a malícia e astúcia dos caçadores. Sem desistir, Volker correu durante dias no encalço de um ramo de lírios. Perdeu-se por entre os campos e, lamento dizê-lo, não mais encontrou o caminho de volta.

* É preciso notar que este caçador falava muito bem para um homem da sua condição.

Conto incluído na revista Piolho, n.º 3.

Strangers talk only about the weather #108

O frio do inverno tolhe o meu corpo: tremo como os ramos das árvores, visto-me e mexo-me como um urso, os meus pensamentos têm a consistência de pedacinhos de neve.

Sábado, Dezembro 4



Uma vez, numa entrevista, quando perguntaram a Kiarostami o que é que a sua mãe (na altura, uma senhora de 105 anos) pensava dos seus filmes, ele respondeu que dormia de uma ponta à outra.
A mim isto sempre me pareceu um elogio, quer dizer, podermos fumar, beber ou adormecer com um filme é prova de verdadeira intimidade.

Sexta-feira, Dezembro 3

Em Marselha

No grande jardim zoológico, achámos espécimes de todos os animais que o mundo produz, julgo eu, incluindo um dromedário, um macaco ornamentado com tufos de pêlo azul brilhante e carmim (um macaco, aliás, muito espampanante), um hipopótamo do Nilo, e uma espécie de pássaro muito alto e pernilongo com um bico semelhante a um chifre, e asas justas como as abas de um fraque. Era uma criatura que se tinha de pé com os olhos fechados e os ombros levemente inclinados para a frente e parecia que metia as mãos debaixo das abas. Tamanha era a estupidez, tamanha era a gravidade superior, tamanha a sobranceria e a complacência inefável que exibia aquele pássaro monstruosamente aberrante, de corpo cinzento, asas escuras e cabeça calva! Era tão feioso, com uma cabecinha tão borbulhenta e umas perninhas tão escamosas... e todavia tão sereno, tão indescritivelmente satisfeito consigo mesmo! Era a criatura mais cómica que se possa imaginar. Foi bom ouvir Dan e o médico rirem-se: ainda não se tinham ouvido gargalhadas tão espontâneas e prazenteiras entre os nossos excursionistas desde que o nosso paquete deixara a América. Aquele pássaro foi para nós uma dávida divina, e seria muita ingratidão da minha parte não o referir aqui com as devidas honras. Afinal, estávamos numa excursão recreativa, pelo que permanecemos uma boa hora diante do pássaro e aproveitámo-lo ao máximo. De vez em quando metíamo-nos com ele, mas o pássaro limitava-se a abrir um olho e a fechá-lo de novo lentamente, sem que isso abalasse a sua grave majestade ou pose ou a incomensurável seriedade. Parece que dizia apenas: "Não desfigurareis com vossas mãos profanas o ungido dos céus." Não sabíamos como se chamava, pelo que o apelidámos de "Peregrino".

Mark Twain, A Viagem dos Inocentes. Tradução de Margarida Vale de Gato.
Perguntaram a uma mulher que vivia no campo se o inverno tinha sido muito frio. "Não muito", respondeu. Depois acrescentou: "Houve apenas três ou quatro dias em que tivemos que ficar na cama para nos mantermos quentes". John Cage, indeterminacy #92

Quinta-feira, Dezembro 2

a felicidade e o negro #2

Não tenho uma lista de filmes preferidos. No entanto Sans soleil faz parte dessa lista.



La première image dont il m’a parlé, c’est celle de trois enfants sur une route, en Islande, en 1965. Il me disait que c’était pour lui l’image du bonheur, et aussi qu’il avait essayé plusieurs fois de l’associer à d’autres images — mais ça n’avait jamais marché. Il m’écrivait: "... il faudra que je la mette un jour toute seule au début d´un film, avec un longue amorce noire. Si on n´a pas vu le bonheur dans l'image, au moins on verra le noir". (Sans Soleil, de Chris Marker)

Quarta-feira, Dezembro 1

Próximo sábado, 4 de Dezembro

Estado social

Trabalhei muitos anos perto de casa, ia a pé, sozinha com os meus pensamentos e com a esquadria dos passeios. Quando mudei para a Boavista passei a utilizar o metro; ao princípio custou-me enfrentar tantos rostos próximos, depois habituei-me e aprendi o prazer de observar as pessoas, tão diferentes umas das outras (o metro consegue a façanha de reunir várias classes sociais e até mesmo aqueles que estão fora das classes), sérias e isoladas com os seus objectos (telemóveis, leitores de música, jornais, revistas e alguns livros). Mas o meu novo emprego fica fora da alçada da modernidade do metro, por isso já há alguns meses que faço o percurso antas-cordoaria ou carregal de autocarro. As pessoas que andam de autocarro são de outro género, varia um bocado com as linhas mas, de uma maneira geral, são mais pobres, mais velhas e mais faladoras. Ouço sobretudo queixas de mulheres: a falta de dinheiro, a ganância dos patrões, a falta de solidariedade dos colegas, a violência surda em casa, as doenças constantes, as correrias para os centros de saúde, o abandono, as casas frias. São imagens tristes mas serenas, contadas com palavras imperfeitas, que se opõem à histeria dos telejornais. Qualquer coisa que o cinema poderia captar, se andasse ainda na rua.