Quarta-feira, Dezembro 22
Il fantasma di Fabrice Borel
Quasi ogni stagione il fantasma di Borel ritornava in mezzo ai vivi per stupire i grandi palcoscenici mondiali:
- Amleto, io sono lo spirito di tuo padre.
E pronunciava la battuta nella sua voce terribile di morto, e in modo così convincente che il pubblico ghiacciava sulle poltrone, strappando applausi entusiastici e critiche eccellenti sui giornali.
Tutto andò molto bene per anni e anni e anni e anni. Fino al giorno in cui, durante una rappresentazione presso il Theater an der Winkelwiese (*), gli cadde addosso parte dello scenario, provocando la sua morte immediata. La sua seconda morte, ben inteso. Dopo l'incidente, che sconvolse il mondo dell'arte e il pubblico dell'epoca, decise di abbandonare definitivamente il teatro. Attualmente, si dedica al commercio di cavalli.
(*) Winkelwiese, 4, 8001 Zurigo.
O Fantasma de Fabrice Borel, conto incluído em Doutor Avalanche. Traduzido para o italiano por Stefano Valente.
Terça-feira, Dezembro 21
RB: I would fuck Kurt Vonnegut, Philip Roth and J.K. Rowling. Those are the top of my orgy list. My current favorite reads are comic books by Bryan K. Vaughan. Just finished "Y: The Last Man" and updated myself on "Ex Machina."
Rachel Bloom, a propósito do seu videoclip "Fuck Me, Ray Bradbury".
[Via Provas de Contacto.]
Fonemoramas
Si leo soy un león
Si emano soy una mano
Si amo soy un amasijo
Si lucho soy un serrucho
Si como soy como soy
Si río soy un río de risa
Si duermo enfermo de dormir
Si fumo me fumo hasta el humo
Si hablo me escucha el diablo
Si miento invento una verdad
Si me hundo me Carlos Edmundo
Carlos Edmundo de Ory.
Domingo, Dezembro 19

Influenciado pelo cinema mudo; enquadra muitas vezes como Bresson; faz planos de corte e pausa em homenagem a Ozu; gosta de vermelho, tango e rock 'n roll; tem um sentido de humor discreto e enviesado; utiliza as palavras como os gangsters utilizam as armas nos filmes negros; as suas personagens são lentas e deslocadas, não têm onde cair mortas. Concluído o pequeno ciclo da trilogia proletária (ou de fracassados que vivem abaixo de cão, se optarmos por uma tradução menos marxista), gostava de desenvolver esta breve descrição do cinema de Aki Kaurismäki mas o quarto onde está o computador é o mais frio da casa — não tão frio como a Finlândia.
Sábado, Dezembro 18

A Rua da Vergonha (Akasen Chitai), de Kenji Mizoguchi, passa hoje às 19h00 na Sala Dr. Félix Ribeiro da Cinemateca. (Li três vezes o texto publicado no cinecartaz e não consegui perceber se é hilariante ou se eu ainda estou a dormir.)
Sexta-feira, Dezembro 17
Reflexões sobre a Arte
Mark Twain, A Viagem dos Inocentes. Tradução de Margarida Vale de Gato.
Quinta-feira, Dezembro 16
Luís Francisco Rebelo, Tchekov em Cena.
Quarta-feira, Dezembro 15
Filipe Guerra.
Terça-feira, Dezembro 14
Em Milão
Mark Twain, A Viagem dos Inocentes. Tradução de Margarida Vale de Gato.
Segunda-feira, Dezembro 13
Em Génova
Mark Twain, A Viagem dos Inocentes. Tradução de Margarida Vale de Gato.
Domingo, Dezembro 12
Ficção-científica da segunda metade do século XIX, da autoria de um ocasional colaborador de Júlio Verne, com curiosas ilustrações da época. André Laurie, pseudónimo de Paschal Grousset, político, jornalista e tradutor, criou n’Os Exilados da Terra uma delirante história de aventuras lunares, na esteira de Cyrano de Bergerac, Jonathan Swift, Edgar Allan Poe e Júlio Verne.
Preço: 35 euros (vendido).
histoire(s) du cinéma #1
Sábado, Dezembro 11

Bulle Ogier em Belle toujours, às 22h39 na rtp2. (Prefiro sempre o Manoel de Oliveira dos amores difíceis.)
Sexta-feira, Dezembro 10
"Doutor Avalanche" é um livro generoso. A dedicatória, ao "leitor" e à "leitora", não é uma simples "captatio benevolentiae", mas revela uma genuína crença nos poderes da imaginação.
Muitas destas histórias precisam de facto do leitor, da leitora, só quem as lê as completa, quer em termos narrativos quer na questão do sentido. Essa generosidade é quase única na nova ficção portuguesa.
Pedro Mexia, no Ípsilon de hoje.
Quinta-feira, Dezembro 9
A la volée, entretien vidéo avec Jean-Claude Rousseau
Paroles autour de quelques noms et d’un mot : Génuflexion, Dominique Noguez, Teo Hernandez, Robert Bresson, Andy Warhol, Luis Buñuel, Danièle Huillet et Jean-Marie Straub, Giorgione, Johannes Vermeer et Piotr Anderszewski.
Paulo Rocha, sobre o filme O Desejado, folhas da Cinemateca. Projecção às 22h00, no Passos Manuel.
Quarta-feira, Dezembro 8
I saw eternity the other night
Like a great ring of pure and endless light,
All calm as it was bright...
Anthony Burton, programa de sala do concerto do Remix Ensemble, na Casa da Música, 07.12.2010.
Henry ficou ali desconfortavelmente sentado sob a luz crua, agarrado à mão e a pensar que diabo lhe iria acontecer agora. Teria tido opção naquilo tudo, tinha escolhido? Claro que tinha de tentar salvar a vida de Cato, mas era isso que estava a fazer? Não podia ter ignorado a carta, não podia não ter aparecido ao encontro. E agora tinha para sempre na cabeça a ideia de ir para «a lista», a ideia de que se fosse culpado de traição, ou mesmo de falhanço, passaria a temer todos os homens estranhos, todos os sons estranhos, para o resto da vida. Não serviria de nada fugir para a América, aquela gente estava em toda a parte. O medo entrara na sua vida e ficaria com ele para sempre. Como era fácil para os violentos ganharem. O medo era irresistível, o medo era rei, nunca soubera isto nos tempos em que vivera livre e sem medo. Talvez o medo irracional fosse o pior de todos. Nesta situação, como podia ele calcular, como podia defender-se na sua mente Talvez sobrevivesse se fosse à polícia, mas nunca saberia, nunca estaria certo, nunca deixaria de esperar pelo golpe. Agora percebia como os ditadores se afirmavam. O pequeno grão de medo em cada vida era suficiente para manter milhões quietos. E recordou um quadro de Max em que um torturador, com ar bondoso e competente, torce o braço duma vítima aos gritos meio sufocada, enquanto uma figura parecida com Lenine puxa calmamente a persiana contra a noite. Era assim, essencialmente, no fundo, no fim.
Henry e Cato, de Iris Murdoch, tradução de Maria Teresa Guerreiro, Cotovia, 1996, p. 274
Terça-feira, Dezembro 7
A primeira vez que Scottie vê Madeleine.







1. Podemos dizer que esta cena já tem os fios que se vão desenrolar até ao fim e aprisionar Scottie (a vertigem é uma teia?). Estamos num restaurante luxuoso, as paredes são forradas a papel vermelho, há muitos quadros com molduras douradas e muitas flores. A câmara dá-nos uma perspectiva por um lado muito aberta, vê-se o tecto com traves de madeira de onde pendem lustres; e por outro um bocado achatada ou claustrofóbica, o restaurante está cheio e parece quase não haver distância entre as pessoas (a vertigem é a expansão e contracção do espaço?). Scottie está sentado ao balcão, desconfortável na sua missão de reconhecer a mulher de um antigo colega para depois a vigiar. Hitchcock faz uma panorâmica pelas salas até chegar a Madeleine (ela traz uma écharpe verde esmeralda, a cor cola-se à pele) e aí, subitamente, corta para um plano subjectivo de Scottie, agora é ele quem a vê, de costas, através de uma porta que Hitchcock filma como se fosse um espelho. Esse plano, geometricamente perfeito, com a outra porta ao fundo triplicando os cortes do espaço, com a colocação da câmara no sítio certo, dá-nos a sensação da vertigem — parece que Madeleine atravessa um espelho (e de onde vem?). Hitchcock filma-a em grande plano, do lado direito, do lado esquerdo, como as fotografias que se tiram na prisão. Scottie está apanhado.

2. A primeira vez que Scottie vê Judy e nela reconhece, ou crê reconhecer, Madeleine. Uma prova do acaso, uma armadilha desejada; ele vai pela rua e encontra-a com umas colegas, tão pouco sofisticada, tão vulgar no seu vestido verde, tão risonha. Segue-a até ao hotel — é isto que significa a palavra apanhado? estar preso a uma coisa, para além da vontade, para além do entendimento? Quer falar com ela, quer perceber — o quê? É um movimento involuntário, avança como um autómato, desamparado. Ela desmente, não é Madeleine, mostra-lhe a carta de condução, fotografias da família, mas o espelho... o espelho reflete a ilusão.

(Imagens retiradas de 1000 Frames of Vertigo)
Lektion 98
Luft, die den Neugeborenen umfängt,
Wenn droben er die neuen Pfade wandelt,
Dich ahnd' ich, wie der Schiffer, wenn er nah
Dem Blüthenwald der Mutterinsel kömmt,
Schon athmet liebender die Brust ihm auf
Und sein gealtert Angesicht verklärt
Erinnerung der ersten Wonne wieder!»
Jean-Marie Straub /Empedokles
Segunda-feira, Dezembro 6
Dmitry Vilensky, membro do colectivo russo Chto Delat?, presente em Serralves.
objectos perdidos

O que procuram mais é o mar ( e quem me dera que o blogue fosse impetuoso e macio como a calheta de Santa Cruz). Mas ontem alguém entrou duas vezes em busca da gabardine de Dominique Sanda.
Domingo, Dezembro 5
O caminho de volta
- Tarde demais, meu velho, tarde demais. A última borboleta tombou às mãos de um sueco de Kiruna – disse-lhe um astuto caçador de raposas que se escondera sob as raízes frias de um enorme carvalho.
Volker encolheu os ombros e regressou a casa.
Na manhã seguinte, decidiu dar caça aos estorninhos. Atravessou os bosques, um após outro. Mas os estorninhos tinham-se evaporado. Um caçador, que subira aos mais altos ramos de uma tília em busca de galinholas, informou-o que o último estorninho tinha acabado de voar para o prato de um outro sueco de Kiruna. Volker soltou um suspiro e retornou a casa.
No dia seguinte, saiu para caçar elefantes. Percorreu as longas savanas de um grande continente. Nem sinal de elefantes. Um caçador que andava por ali ergueu o indicador e disse-lhe que os de Kiruna tinham caçado todos os elefantes.
- Um espectáculo como nunca vi. Quanto mais penso nisso, mais a cabeça me anda à roda. Um jeu de massacre*. Os elefantes tombavam como moscas no fim do Verão. Não restou um único – disse o caçador.
Desta vez, Volker fez o caminho de regresso com uma fúnebre solenidade.
Na manhã seguinte, saiu de casa para caçar flores. Havia flores por toda a parte. De todos os tamanhos, formas, cores. Não é todos os dias que um caçador encontra oportunidade tão sedutora. De olhos faiscando, empunhou a arma e lançou um fogo cerradíssimo. Porém, sem resultado. As flores são extraordinariamente rápidas e estão habituadas a lidar com a malícia e astúcia dos caçadores. Sem desistir, Volker correu durante dias no encalço de um ramo de lírios. Perdeu-se por entre os campos e, lamento dizê-lo, não mais encontrou o caminho de volta.
* É preciso notar que este caçador falava muito bem para um homem da sua condição.
Conto incluído na revista Piolho, n.º 3.
Strangers talk only about the weather #108
Sábado, Dezembro 4
A mim isto sempre me pareceu um elogio, quer dizer, podermos fumar, beber ou adormecer com um filme é prova de verdadeira intimidade.
Sexta-feira, Dezembro 3
Em Marselha
Mark Twain, A Viagem dos Inocentes. Tradução de Margarida Vale de Gato.
Quinta-feira, Dezembro 2
a felicidade e o negro #2


La première image dont il m’a parlé, c’est celle de trois enfants sur une route, en Islande, en 1965. Il me disait que c’était pour lui l’image du bonheur, et aussi qu’il avait essayé plusieurs fois de l’associer à d’autres images — mais ça n’avait jamais marché. Il m’écrivait: "... il faudra que je la mette un jour toute seule au début d´un film, avec un longue amorce noire. Si on n´a pas vu le bonheur dans l'image, au moins on verra le noir". (Sans Soleil, de Chris Marker)





